domingo, 22 de março de 2009

INACABADO

Era domingo.
O menino da ria sorria.
Tu tentavas prender-me
entre um pensamento
e outro, porque não sabias
que sou uma gaivota que
voa
e uma gaivota não se prende.

A tarde nascia dormente
entre uma maré e outra
e no silêncio da sombra
a minha imaginação,
qual barco dando a proa
à onda, corria.

Dia Mundial da Poesia

Uma amiga mostrou-me que eu estava em falta, sendo uma apreciadora de poesia deixei passar o dia comemorativo em branco. Para me redimir desta falta deixo-vos um poema que adoro e que já há muitos anos não ouvia, mas na sexta-feira passada tive o prazer de ouvir pela voz de Tânia Silva com música de Afonso Dias, na Biblioteca Municipal de Loulé:

OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados
em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos para te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre mais linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

sábado, 21 de março de 2009

Sugestão de fim-de-semana


De um grande senhor só poderíamos esperar um grande filme. Poderia estar aqui a enumerar as razões para irem ver este filme, mas não vou. Só vos digo, se tiverem oportunidade vão ao cinema ver, vale a pena.


Imagem: http://moovyboovy.com/2008%20IMAGE%20NOV/gran_torino_movie_poster2.JPG

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cadernos da Infância I

Lembro-me de minha avó, num tempo que não era tempo, numa noite iluminada de pirilampos, o som da pedra contra pedra dilacerando o milho.

Da cozinha vinha aquele cheiro mágico de um incenso único, o eucalipto e a esteva a ficarem rubros na lareira e sobre eles o tacho de cobre, negro como a noite que os pirilampos iluminavam, onde ondeava o xarém, que não me alimentava tanto quanto as suas histórias.

À porta de casa a rosa mosqueta, perfumando os dias agrestes, tão branca quanto a imaculada cal que tingia as paredes de taipa. No interior, a cal ganhava cor, confundia-se com o fumo, era cor-de-vinho, amarelo torrado e tinha um cheiro e sabor como o de frutos que já não há.

As videiras sobre a janela e os narcisos em frente davam-lhe um ar de tragédia grega.

Ainda lá estão as pedras da calçada, que foram ganhando forma sob os nossos passos e onde tantas vezes foi derramado sal (seria do mar ou das nossas lágrimas?) para impedir as ervas de crescer.

Tudo lá está, apenas nós não.